28 Outubro 2009
20 Janeiro 2009
em breve, muito breve, a nova primeira novela: margens, um título provisório. uma palavra que entra noutra palavra que entra em outra palavra, que se entra para poder se caber junto com outras, que vêm, entram e saem e voltam de novo arrependidas. feita de cuspe, suor, fezes e algumas mímicas não-meméticas. e mete meta neles.
13 Dezembro 2008
ARTHUR RIMBAUD: VIDA E EXISTÊNCIA, POR UMA ESTÉTICA DO MOVIMENTO.*
Introdução.
Falar de Rimbaud é um ato arriscado – é como alguém que se joga em um espaço desconhecido, numa vertiginosa nomadologia em busca de climas e gostos até então inexploráveis, desertos povoado. Mesmo que para isso se tenha que, como diz o poeta Rasec, “fazer parir uma nova palavra, uma nova língua, um novo povo” para fazer subir à superfície Visões e Audições que já não pertencem a língua alguma (DELEUZE, 1997) e que são todas experimentadas pelo corpo, fazendo poder criar sobre ele coisas que talvez nem Espinosa pensaria que fosse capaz, corpo esse sempre em movimento, junto à obra – vida-existência. Poesia em Ação.
O filósofo e psicanalista Daniel Lins, em um de seus artigos, nos mostram esse corpo em movimento, esse corpo dançarino:
Falar de Rimbaud é um ato arriscado – é como alguém que se joga em um espaço desconhecido, numa vertiginosa nomadologia em busca de climas e gostos até então inexploráveis, desertos povoado. Mesmo que para isso se tenha que, como diz o poeta Rasec, “fazer parir uma nova palavra, uma nova língua, um novo povo” para fazer subir à superfície Visões e Audições que já não pertencem a língua alguma (DELEUZE, 1997) e que são todas experimentadas pelo corpo, fazendo poder criar sobre ele coisas que talvez nem Espinosa pensaria que fosse capaz, corpo esse sempre em movimento, junto à obra – vida-existência. Poesia em Ação.
O filósofo e psicanalista Daniel Lins, em um de seus artigos, nos mostram esse corpo em movimento, esse corpo dançarino:
“o corpo de Rimbaud é primordialmente o corpo que anda, o corpo que marcha (...) o vocábulo marchar tem na obra de Rimbaud a promessa do “arcar” por vir em Iluminações: era como se, andando, o corpo inventasse uma relação com o mundo” (LINS, 2007, p. 102).
Daniel Lins vai marcar, nesse seu estudo, a estética do movimento como estando ligada a poiética rimbaudiana. Movimento esse inserido dentro de uma abordagem não só sintática, mas existencial da obra do poeta. E é esse movimento que tentarei mostrar, dar continuidade, fazer chegar à pele não só a estética dançarina, mas a nômade, a que impulsionou Rimbaud a criar, a buscar novos “eus” e “outros”, construindo planícies novas com sua própria existência, a partir do que ele chamava de um imenso e calculado desregramento de todos os sentidos; como ele mesmo diz, “com uma lógica nada previsível”. (Farei isso passando por suas duas obras “prontas”, as Iluminações, escrito provavelmente de 1873 a 1875, pouco antes de dar adeus seu devir-literário e Uma Estadia no Inferno, escrito em 1873; duas obras que, com alguns flashes biográficos, mostrarei o movimento de sua obra, e até onde ela o levou)
Em uma carta, datada de 13 de maio de 1871, ao poeta e amigo Georges Izambard, o Rimbaud escreve sobre a poesia, sobre a ação na poesia e sobre o sentimento forte que o poeta tem que carregar, como sendo o poeta o visionário, que ver um novo povo, sendo esse poeta apenas o meio que deve traficar para o leitor o registro de suas visões grandes demais para ele, porque “escrever não é contar suas próprias lembranças, suas viagens, seu amores” - ela se realiza na potência de um impessoal (DELEUZE, 2000), e foi isso que Rimbaud fez: encontrou um Outro que não ele, seu Impessoal, e viveu esses outros como escreveu. Na carta a Izambard, diz o poeta:
“Os sofrimentos são enormes, mas é preciso ser-se forte, ter nascido poeta, e eu reconheci-me poeta. Não é de modo algum culpa minha. É falso dizer-se: eu penso.”
E depois, analisando a tarefa da poesia como ação, como movimento, diz: “Na Grécia (...) versos e liras ritmam a Ação.” Nas cartas que Rimbaud escreve aos seus amigos, ele se preocupa em cartografar seu pensamento acerca da poesia e do tornar-se poeta, o verdadeiro ladrão de fogo.
A preocupação de Rimbaud era a questão do seu devir poeta, do ser poeta em relação à existência. Ele diz acerca da tarefa do poeta: “Ele tem a seu cargo a humanidade, os animais mesmo; deve fazer sentir, palpar, escutar as suas invenções; se aquilo que ele transmite de lá tem forma, ele dá a forma; se é informe, ele dá o informe” e faz “Achar uma língua”. Mas também deixá-la viver só, abandoná-la como no caso ele fez quando partiu para o Oriente. Como diz Nietzsche, o livro quase tornado gente. Para o filósofo alemão
“para todo escritor é sempre uma surpresa o fato de que o livro tenha uma vida própria, quando se o desprende dele (...) Talvez ele se esqueça do livro quase totalmente, talvez se eleve acima das opiniões que nele registrou, talvez até não o compreende mais” (NIETZSCHE, 2000, p.140).
Rimbaud experimentou de forma visceral essa transmutação do livro tornado gente, sendo que na sua própria pele, a cada nova viagem, a cada nova passagem de sua vida, sempre em movimento, rumo a outros caminhos até então inexprimíveis. Não é a toa que ele diz, em Uma Estadia no Inferno: “escrevi silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens” e assim tornando-se uma “ópera fabulosa”.
A VIDA E A POESIA NÔMADE.
Não importa agora descrever toda a infância da vida de Arthur Rimbaud, mesmo que isso se faça necessário em outra circunstância. Mas situarei sua vida brevemente, para podermos marcar os pontos das suas obras Uma estadia no Inferno e Iluminações, também alguns poemas esparsos que mostra o movimento de suas andanças.
Rimbaud nasce em 20 de outubro de 1854 em Charleville, no norte da França, perto da fronteira belga. Nesta pacata cidadezinha, repleta de casas com telhados angulares, onde tranqüilos burgueses contemplam os meandros do rio Meuse, Vitalie Cuif, de origem camponesa e filha de proprietários rurais, conhece o capitão Fréderic Rimbaud. Casam-se em 1853 tendo como primeiro filho Fréderic, que acabará como motorista de ônibus no vilarejo vizinho de Attigny. Após o nascimento de Arthur, o casal viverá praticamente separado, pois o pai apenas regressará ao lar raríssimas vezes.
Os dois irmãos são matriculados pela mãe em 1862 no Instituto Rossat, colégio freqüentado pela alta burguesia de Charleville. A precocidade de Arthur deixa os mestres estupefatos, principalmente por sua incrível capacidade de traduzir a poesia latina. Aos colegas anuncia com orgulho que quando adulto será explorador. Arrebatando todos os prêmios escolares, leva certa vez ao desespero o velho e rabugento Prof. Perrete, que diante daquele aluno incomum teria afirmado: "Rimbaud é inteligente até não poder mais; mas acabará mal...". Entre 1868/1869 adquire tal domínio sobre as línguas antigas que consegue escrever fluentemente versos rimados em latim. Desenvolve alguns versos epicuristas de Horácio, que são enviados à Academia de Douai. A composição recebe uma menção especial e é publicada no Boletim Oficial da Instituição. Rimbaud declara ter recebido em sonho aqueles poemas, do próprio Febo (Apolo), que anunciara a seguinte revelação: "Tu vate eris” (Serás poeta).
Em 17 de janeiro de 1870, George Izambard, um jovem professor de 22 anos, é nomeado para a cadeira de retórica do Instituto Rossat. Ele saberá de imediato reconhecer e incentivar a vocação poética de Rimbaud, que o fascina. Propõe-se uma lição em versos latinos, o jovem poeta lhe entrega, além da composição, uma variante em versos franceses. Izambard, acompanhando a espantosa eclosão daquele gênio literário, o aconselha a enviar seus escritos ao famoso periódico literário Le Parnasse Contemporain. Infelizmente, a série de publicações já estava completa, e o eminente parnasiano Theodore de Banville lhe escreve lamentando o fato e o felicitando pelos admiráveis poemas Ofélia. Em agosto é deflagrada a guerra contra a Prússia. Entre os estrondos dos canhões o poeta foge de casa, seguindo o exemplo do irmão, que se evadira dias antes, e toma um trem para Paris. Queria ver de perto a queda de Napoleão III, dizendo-se republicano e ateu. Sem documentos, é preso na fronteira belga e enviado à prisão de Mazas. Izambard consegue sua soltura e o abriga temporariamente em Douai na casa de suas tias (as tias provavelmente do poema As Catadeiras de Piolho). De volta a Charleville, Rimbaud chega com o demônio da fuga no corpo, escapulindo para a Bélgica, e retornando novamente a Douai, onde permanece três semanas na casa das tias de seu mestre. Esta jornada inspira-lhe os antológicos poemas No Cabaré Verde e Minha Boemia. Esses dois versos, eu diria que seriam os próprios movimentos de Rimbaud, os seus passos, suas estadias em visões novas, cores e sensações que até então na poesia não se tinha experimentado. E, 1871 Charleville é ocupada pelos alemães e mais uma vez Rimbaud foge de casa, rumo a Paris. Lá conhece Paul Verlaine, poeta já consagrado, que vive uma grande aventura que não dará tempo contar aqui tudo.
O fato é que Rimbaud foi um nômade no sentido deleuzeano do termo. No seu livro Mil Platôs, escrito com Félix Guattari, ele discorre acerca do ser - nômade:
“A vida do nômade é intermezzo. (...) O nômade não é de modo algum o migrante, pois o migrante vai principalmente de um ponto a outro, ainda que este outro ponto seja incerto, imprevisto ou mal localizado. Mas o nômade só vai de um ponto a outro por conseqüência e necessidade de fato; em princípio, os pontos são para ele alternâncias num trajeto.” (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p. 42)
Rimbaud não fez senão isso: alternou (tanto em sua criação quanto sua vida) de um ponto a outro, a fazer outros, pela necessidade de estar no meio das coisas, como observa Antonin Artaud em seu texto Rimbaud & os modernos. Poeta em processo, em transe, de passagem, captando, raptando a realidade de forma de iluminuras.
Em falar de Iluminuras, prosseguirei a mostrar os movimentos sua existência a produção dessa obra, que inaugura versos livres e intensifica a poesia em prosa, influenciado por Charles Baudelaire. Escrita em sua trajetória nômade por Londres, Iluminações é faz emergir o movimento dos estados sensitivos de Rimbaud, os “sobressaltos da consciência” e o delírio vertiginoso. Nessa obra, o poeta tenta captar o modo como a experiência poética ocorre para ele: como criação de intensidades instantâneas, potências afirmadores de vida, isto é, novos sentires, outros sentidos. A realidade me Rimbaud é tecida como um modelo cambiante, uma sucessão de rápidas iluminações, acontecimentos, afetos, em movimentos que está sempre “entre”, diferente da visão aristotélica de um universo finito, estável, com começo, meio e fim. Nesse processo, o poeta consegue driblar, no devir da improvisação poética (e da vida, diga-se de passagem), o mundo estático da poesia parnasiana e da vida dos literatos franceses da época, que fala de si para si, que não faz nada senão uma reprodução, como diria Mário ou Oswald de Andrade, não lembro agora, não passando de “uma máquina de fazer versos”.
Grande passeio dava Rimbaud nos dias em que as Iluminuras foi escrita. Numa carta para Blémond, Verlaine, que estava presente – em viagem – junto a Rimbaud nesse período, escreve: “todos os dias damos longos passeios nos subúrbios e no campo, na periferia de Londres...”. As caminhadas pelos subúrbios – escreve o biógrafo Charles Nicholl (2007) – nos trazem à mente um texto de Iluminuras, o movimento das cidades e dos operários, numa certa “quente manhã de fevereiro” em que sobre “o vento Sul inoportuno”:
“Dávamos um passeio pelo subúrbio. O tempo estava encoberto, e esse vento do Sul excitava todos os maus odores dos jardins devastados e dos prados ressequidos [...] A cidade, com sua fumaça e os ruídos de ofícios, nos seguia muito longe pelos caminhos” (RIMBAUD, 1996, p. 41).
Nesse mesmo ambiente que Rimbaud começa a escrever Uma Estadia no Inferno (datado de abril a agosto de 1873). Em maio ele escreve a um amigo, o poeta Delahaye dizendo que está trabalhando com “razoável regularidade”:
“Estou escrevendo algumas breves histórias em prosa (...) É bobo e inocente (...) Meu destino depende desse livro, para o qual ainda tenho que inventar uma meia dúzia de histórias atrozes.” (apub NICHOLL, 2007, p.93).
Trabalho esse que Rimbaud mal viu sendo divulgado, assim como as Iluminuras que o poeta nem viu sendo publicado, pois estava em seu outro, tinha ido para longe, para o outro lugar que já em Uma estadia no Inferno profeciava, como se fosse também apenas uma estadia: “Voltarei, com membros de ferro, a pele sombria, olhar furioso; pela máscara, me julgarão raça forte. Terei dinheiro; vou ser ocioso e brutal. (...) estarei nos negócios políticos” (RIMBAUD, 2006, p. 27). Posto que para ele, a gente não parte, retoma o caminho (ibidem). Movimento, movimento que poderíamos situar tanto na vida quanto na obra, mesmo obra encarnada, dicionário vivo, encadernado de pele, pelas outras geografias do Oriente.
Assim, Rimbaud insere no campo literário a poesia-em-ação, o movimento dançarino que se faz a sua construção existencial, tal como Artaud o fez, os Situacionistas (que Lucas Fortunato irá trabalhar hoje em sua comunicação). Exprimindo novos caminhos para a poética moderna, para as formas de estética de existência. Não dá para falar tudo, pois o tempo não dá, o que fiz aqui foi mostrar alguns momentos e movimentos de sua escrita, não de forma que se tenha mostrado sumariamente, mas a partir de informações e pensamentos acerca de suas obras, de sua vida – aqui situada muito rapidamente – se deu para captar o como é que a literatura & sua vida pode se afirmar como uma só criação, a dupla criação, uma interferindo na outra, afirmando a potência da arte, que faz ver novos horizontes da vida, na vida e pela vida. Por que não falei desse “eu”, porque ele está mudando a cada instante, tomando novas formas imprevisíveis de conteúdos e expressões.
Por fim, termino com uma frase do poeta, que traduz tudo isso, que traduz esse novo olhar acerca da criação, da superação, da forma que nos domina. Diz o poeta: “E existiremos nos distraindo, sonhado amores prodigiosos e universos fantásticos, nos queixando e discutindo as aparências do mundo, saltimbanco, mendigo, artista, bandido...” (RIMBAUD, 2006) – pois escrever “é também tornar-se outra coisa que não escritor.” (DELEUZE, 1997).
O homem, porém, mais uma vez não explica a criação; por sua vez, desconhece o seu autor. Rimbaud entrou no corpo da palavra por ter dela saído em busca da poeira dos dias e do sol do estrangeiro...
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* Trabalho apresentado na XV Semana de Humanidades da UFRN, em Outubro de 2008.
Rodrigo Sérvulo
05 Dezembro 2008
Alguns escrevem pela arte, pela linguagem, pela literatura. Esses, sim, são os bons. Eu só escrevo para fazer afagos. E porque eu tinha de encontrar um jeito de alongar os braços. E estreitar distâncias. E encontrar os pássaros: há muitas distâncias em mim (e uma enorme timidez). Uns escrevem grandes obras. Eu só escrevo bilhetes para escondê-los, com todo cuidado, embaixo das portas.
24 Novembro 2008
Notícias de Nenhum Lugar
“Eu queria que toda revolução fosse um gozar-se”. Assim termina o livro Notícias de Nenhum Lugar de John Klen – um intenso romance acerca de uma revolução num “vilarejo sem nome de um país sem território”. Ao abrir a primeira página, o escritor Klen nos adverte que “toda revolução é uma maneira de festejarmos, pois a alegria e celebração fazem parte de “nossa” natureza-antinatural. O que importava naquele vilarejo era o ato revolucionário e não a revolução. A crônica que se segue aqui não é nada senão o recorte de algumas alegrias que antecederam a revolução”. Depois, John começa a descrever vários lugares, todos com grandes portas, como se fossem lugares-comuns que teríamos que passar para poder chegar ao lugar-nenhum que ele descreve em sua obra. Segundo ele, esses lugares seriam territórios da consciência onde “nós, homens, habitamos sem saber dos outros; os outros que não existem – pois o existir – mas como existo senão na medida em que um outro possa existir? – supera a própria vontade de estar aqui, querendo estar ali”. Mas ali que é o mesmo lugar, a comporta vizinha que nunca abre. Assim, Klen segue com uma confusa narrativa filosófica, onde mistura pedaços de mitos e sobras de ritos de países que, diz ele, “já existiu neste planeta terra; e outros que ainda existem, mas que por estar por se fazer e fazendo-se mudam-se e renomeiam-se, acabam por não mais existir”. Para o escritor, apenas as palavras conseguem suportar o peso do esquecimento. E por isso que ele escreve, para fazer memorar as cidades perdidas de povos esquecidos. Esses lugares-nenhuns. Eis o motivo do título “Notícias de Nenhum Lugar”. Por não gostar de falar de livros, porque para mim é a mesma coisa de assistir filme e sair falando por aí. Por isso, deixo a dica. Notícias de Nenhum Lugar. De John Klen.
“Eu queria que toda revolução fosse um gozar-se”. Assim termina o livro Notícias de Nenhum Lugar de John Klen – um intenso romance acerca de uma revolução num “vilarejo sem nome de um país sem território”. Ao abrir a primeira página, o escritor Klen nos adverte que “toda revolução é uma maneira de festejarmos, pois a alegria e celebração fazem parte de “nossa” natureza-antinatural. O que importava naquele vilarejo era o ato revolucionário e não a revolução. A crônica que se segue aqui não é nada senão o recorte de algumas alegrias que antecederam a revolução”. Depois, John começa a descrever vários lugares, todos com grandes portas, como se fossem lugares-comuns que teríamos que passar para poder chegar ao lugar-nenhum que ele descreve em sua obra. Segundo ele, esses lugares seriam territórios da consciência onde “nós, homens, habitamos sem saber dos outros; os outros que não existem – pois o existir – mas como existo senão na medida em que um outro possa existir? – supera a própria vontade de estar aqui, querendo estar ali”. Mas ali que é o mesmo lugar, a comporta vizinha que nunca abre. Assim, Klen segue com uma confusa narrativa filosófica, onde mistura pedaços de mitos e sobras de ritos de países que, diz ele, “já existiu neste planeta terra; e outros que ainda existem, mas que por estar por se fazer e fazendo-se mudam-se e renomeiam-se, acabam por não mais existir”. Para o escritor, apenas as palavras conseguem suportar o peso do esquecimento. E por isso que ele escreve, para fazer memorar as cidades perdidas de povos esquecidos. Esses lugares-nenhuns. Eis o motivo do título “Notícias de Nenhum Lugar”. Por não gostar de falar de livros, porque para mim é a mesma coisa de assistir filme e sair falando por aí. Por isso, deixo a dica. Notícias de Nenhum Lugar. De John Klen.
01 Novembro 2008
- um caso de gagueira, em uma passarela onde pessoas são sugeridas a atravessá-la, pelo fato de haver embaixo três avenidas onde automóveis passam às maiores velocidades, ocasionou um grande alarde na cidade. uma pessoa morreu por causa de uma encenação teatral de outrem. - em sua primeira encenação, j.f. fez morrer p.l., uma mulher de seus 46 anos.
- estavam atravessando essa passarela, quando j.f, "do nada", urrou e depois gritou em alto e bom som: "o vírus está no ar, vamos todos morrer sufocados...". quando p.l. ouviu isso e olhou pra j.f., que acabara de voltar do trabalho (ele trabalhava de faxineiro, mas sonhava em encenar algo na frente das pessoas em um lugar inusitado), pulou da passarela gritando: "eu sabia, eu sabia...".
- foi assim que aconteceu. os jornais, por não saberem bem o motivo, pois as conexões estavam dispersas, nem informaram esse caso. e a cidade, após algumas horas, esqueceu completamente esse caso tão importante para os pensadores do teatro.
05 Outubro 2008
Fazer serpentear, pulsar, estremecer as sintaxes; corroer etimologias, gaguejar a língua, desterritorializar culturas - falar sobre um povo menor, por vir, que não é criado por um EU, pois não se pode mais dizer EU, pois sua criação se dá através de uma literatura que é menor, que se dá por agenciamentos de enunciação coletiva.
Povoar intensificações na escrita - gozar, tal qual Sade, Rimbaud, Masoch o fizeram. Escrever não é senão gozar, às vezes por estuprar ou estripar a folha, por outras por fazer dançar as palavras por essa mesma folha - escrever é um ato de criar para si um corpo-sem-órgãos, é mais que isso: é como cagar, é um ato fisiológico que faz com que nosso corpo se jogue às formas de conteúdo ou expressão da escrita numa relação libidinal, que faz com que o pensamento se opere de outras maneiras - como Foucault vai observar: a escrita não consegue acompanhar o pensamento mas só ela pode fazer o pensamento.
Escrever é um ato por vezes doloroso, mas quem disse que não há prazer na dor, quem disse que não se goza por essa via de intensidade. Sade, uma escritura que frui - como observa Barthes - e que goza.
Já a leitura, o que seria? A leitura não é o ato em que já não existe autor, onde o leitor faz agenciar esse povo menor, por vir; ela mata o autor, aliás, mata a instituição por trás do autor. Onde não existe mais o sabe com quem você está falando? E sim fala um ser que não é senão o meio do qual é possível dizer o que se quer falar, mas que não é Autor, que não está sendo legitimado por nada - que escapa, que busca outros caminhos para poder falar.
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